Marés de boa sorte

Uma gatinha de rua ganha um lar... inusitado!

Olá, Viajante! Faz tempo que não apareço por aqui, mas espero que isso mude daqui pra frente. Trago hoje um conto que escrevi para uma antologia que não foi aceito e não vai ser publicado :D É narrado por uma gatinha cinza de rua, e foi um divertimento escrever na visão dela.

Esse conto, em especial, tem um agradecimento: à Marina Feijoó (@marina.feijoo no instagram), a pessoa responsável pela revisão ortográfica dele ❤️ obrigado Mari!

Caso queira apoiar meu trabalho com a escrita, te convido a conhecer Espírito do Oeste, meu livro de piratas e sereias que está disponível para compra na versão ebook ou física!

Sem mais delongas…

Marés de boa sorte

O Manual Secreto dos Gatos não nos ensina o que fazer quando as instruções contidas nele não dão certo.

No item 4.5.3, por exemplo, diz que basta fazer cara de coitada quando algum humano estiver comendo que eles automaticamente irão te oferecer algo para comer também. Quando tentei, tudo que ganhei foi um "xô" resmungado, escapando por pouco da ponta da bota que vinha em minha direção.

E esse item nem é o único que não funciona!

O item 56.3 é outro. Todo esse capítulo fala sobre a distribuição de adoção de humanos — e, nesse item específico, deixa claro que se um humano te fizer carinho, ele automaticamente é adotado por você. Mas eu já recebi carinhos, especialmente de mini humanos, cujos dedinhos coçam embaixo do meu queixo, e nenhum deles voltou para me buscar.

Talvez eu seja o problema. Talvez o Manual não funcione comigo.

Funcionou para minha mamãe e meus irmãos. Todos eles foram adotados, retirados do refúgio de bolas de pelo onde costumávamos nos aninhar. Mas eu fiquei. Sozinha, no porto, fugindo de pontapés e ratazanas quase do meu tamanho, roubando pedaços de peixe podre para comer e dormindo em caixotes úmidos largados pelo píer.

Por isso, decidi ignorar o Manual. Não quero ter que depender de humanos para sobreviver.

Naquele dia específico, o dia em que tudo mudou, eu corria pelas tábuas de madeira perseguindo meu jantar: um pequeno rato marrom cujo coração disparado no peito batia tão rápido quanto o meu. Nem estava com muita fome, porém a gente aprende a sempre se prevenir para não ficar sem alimento depois.

O rato era rápido, o rabo chicoteando de um lado ao outro enquanto passava entre pernas e botas, desviando de caixas e vassouras. Eu ia atrás, até me divertindo com a confusão que criamos. Quando ele deu uma guinada para a esquerda, o segui sem hesitar; nós dois subindo por uma rampa de madeira que levava à uma grande estrutura. O chão começou a oscilar sob minhas patas, e parte de mim percebeu: não estávamos mais no píer. A outra parte, porém, ainda estava focada na caçada.

O rato se enfiou em um monte de cordas jogadas perto de um grande mastro, e, sabendo que, uma hora ou outra, ele teria que sair dali, me deitei na frente. Meu rabo chicoteava de um lado ao outro, espanando o chão, enquanto eu pacientemente esperava…

Nada ao meu redor importava além do meu jantar, e foi por isso que não percebi ordens sendo gritadas e nem a rampa sendo erguida. O chão balançava mais forte, mas meu foco se mantinha, paciente.

— Ora, ora, o que temos aqui? — A voz humana, grossa e perto demais, me assustou. Não fui rápida o bastante, e mãos calejadas me ergueram pelas axilas como se não pesasse nada. Acho que não pesava mesmo.

A pessoa que me ergueu do chão era baixa, de olhos calorosos e cabelos cacheados coloridos. Ela devia ter matado um pássaro recentemente, já que seu chapéu marrom possuía uma bela pena presa nele. Olhei ao redor, desesperada, e percebi que em seu cinto havia duas facas presas, uma de cada lado, cujas lâminas eram muito mais compridas do que as que eu costumava ver nas mãos dos pescadores. Mesmo sendo uma pessoa de estatura baixa, tudo nela exalava confiança e autoridade.

Assim como eu… espero!

Miei e me debati em suas mãos, as garras pulando para fora para arranhá-la, mas a humana riu mais ainda, apoiando minhas patas de trás e aliviando o desconforto em minha coluna.

— Calma, calma — ela sussurrou, voz mansa, dedos correndo por meu pelo cinza de forma carinhosa. — Não vou te machucar, bebezinha. Tá tudo bem.

Por algum motivo, diferente de todas as outras vezes que humanos se aproximaram de mim, senti uma onda de calma me envolver. O desespero anterior sumiu enquanto a voz calma da humana continuava a murmurar contra meu ouvido, nossos corações batendo cada vez mais devagar, em conjunto.

— Você tá tão magrinha! Deve ter entrado no meu navio atrás de comida, né? Tá tudo bem, vou pegar um pouco pra você. Aqui no meu navio ninguém passa fome, neném.

O calor que emanava dos braços desnudos era muito bom, e a coçadinha que ela dava em minha cabeça era melhor ainda. Então, me deixei ser acolhida em seu abraço, mesmo sabendo que, eventualmente, ela iria me deixar, igual a todos os outros. De forma instintiva, comecei a ronronar e esfregar minha cabeça contra seu queixo, fazendo-a rir.

— Você é uma bola de pelos carinhosinha por demais, não é, Pequenina? Tá tudo certo, você tem uma casa agora… Vou te apresentar pra Luar, e logo vocês serão amigas. Minha tripulação ganhou uma nova primeira imediata, aparentemente.

Sua voz era baixa e calma, e, quando ela me ergueu para perto de seu rosto, enterrando-o nas minhas costas e me enchendo de beijos, algo em mim se aqueceu mais ainda, emanando ondas ronronantes na direção dela.

— Mas já chega, vai lá conhecer a Luar que eu tenho mais coisa que fazer além de cheirar gato, — A humana riu sozinha, se abaixando para me colocar no chão com cuidado. Senti o mundo subir e descer enquanto aquele pedaço enorme de madeira flutuava pelo mar, nos carregando para longe da costa.

Não sabia quem era Luar e o que diabos era uma tripulação, mas os carinhos ainda me faziam me sentir amada, então esfreguei minhas costas contra as pernas dela, fazendo-a rir.

— Chega, chega, Cinzenta. Preciso ir. Vai lá conhecer sua irmã, vai! — Ela se abaixou uma última vez, o chapéu quase caindo de sua cabeleira, e deu duas batidinhas de leve em minhas pernas, indicando para onde eu devia andar. Depois disso, ajustou o chapéu e saiu andando pelo navio.

Um outro humano mexia nas cordas onde meu jantar estava e, sem saber se ele seria tão amigável quanto a anterior, me afastei, indo em direção ao que parecia um muro de madeira a circundar todo o navio. O cheiro salgado de maresia atingia meu focinho, fazendo os bigodes tremerem, e pensei em pular no muro para olhar os arredores.

Foi nesse movimento que um novo cheiro me atingiu: cheiro de gato.

Fiquei paralisada no chão que bambeava; o coração disparado no peito, as patas retesadas prontas para lutar ou correr, o silvo agressivo se tornando um rosnado inconsciente na garganta.

Deitada tranquilamente em uma almofada repousada em cima de um barril, havia uma gata enorme. Talvez a maior que já vi em todas as minhas sete vidas.

Parecendo ouvir o silvo, ou talvez sentir minha presença, a gata abriu os olhos, tão azuis quanto a imensidão do céu e do mar ao nosso redor. Mesmo reparando em minha postura agressiva, ela não pareceu nem um pouco impressionada; com a maior preguiça do universo, se ergueu e se espreguiçou, esticando as costas. Depois, saltou em minha direção, a barriga pelancuda balançando de um lado ao outro.

“O que uma vira-latas faz no meu navio, posso saber?”, ela perguntou em um miado baixo, circulando ao meu redor. Havia mais curiosidade do que agressividade em sua postura, mas permaneci alerta. As frases do Manual vinham à minha mente:

ITEM 5.2 – Se já há um gato no local, aceite a dominância ou prepare-se para lutar por ela.

Sem vontade nenhuma de lutar para assegurar um território em um lugar onde nem pretendia estar, abaixei o corpo e relaxei a postura das orelhas, deixando-a se aproximar de mim para trocarmos nossos cheiros.

“Foi sem querer”, respondo. “Estava perseguindo meu jantar e acabei presa aqui.”

“Humpf... já entendi que você não tem humanos de estimação, então?”

O tom debochado causou um desconforto leve na minha barriga, mas tentei ignorar. Nossos narizes se tocaram, gelados, e, além do cheiro de maresia, peixe e saliva, ela também cheirava a algo quente… como aquela humana.

“Não tenho mesmo! Algum problema?”

O silêncio que se segue também é curioso. Nos observamos por algum tempo. Ela era uma gata bonita, de pelo branco e manchas tigradas cinzas cobrindo o rosto, o rabo e as costas; no centro delas, um rasgo de pelo branco cortava o padrão listrado e cinzento. Sem aviso, os olhos azuis dela se abriram em fendas largas.

“Como te chamam, pequenina?”

A mudança de assunto, sutil, não passou despercebida. E, embora não gostasse do apelido, ele era apenas uma constatação de fatos afinal, perto dela, eu realmente era pequena. A gata se sentou no chão cambaleante, o rabo calmo enrolando-se ao redor das patas, e então piscou lentamente.

A agressividade morreu em mim tão rápida quanto surgiu.

“Cinzenta.”

“Eu sou a Luar. Capitã Luar!” Enquanto falava, ela começou a lamber as patas, como se fossemos velhas amigas com quem ela não precisava se preocupar. Também me deitei, deixando o corpo relaxar até estar com as patas dobradas na frente do peito. “Você cheira como minha humana.”

“Aquela com a pena na cabeça? Ela… é diferente das pessoas que já conheci.”

“Ela é. E tem um coração grande demais pro bem dela…”

A gata parou o banho e pulou no muro de madeira que, anos depois, descobri se chamar balaustrada. O sol batia em seu pelo e ela fez um sinal com a cabeça para que eu a seguisse. Pulei também, me equilibrando, e observei o mar ao nosso redor de um lado e…

Minha nova casa, do outro. As tábuas de madeira, as pessoas de roupas leves caminhando de um lado para o outro, minha nova irmã.

“Vem. Você acaba de desbloquear uma parte secreta do Manual: ‘Como se tornar a gata de um pirata’. Vou te mostrar tudo e te explicar quem é quem na tripulação.”

Enquanto a seguia pela balaustrada do barco, o som das ondas quebrando contra o casco, decidi perguntar:

“Luar... o que é uma tripulação?”

A risada dela e o jeito que balançou a cabeça me fizeram rir também, entendendo que seríamos boas amigas.

Hoje, meses depois do dia em que minha vida mudou, quando a Capitã aporta o navio em uma cidade e volta para ele com uma gatinha preta enrolada nos braços, é minha vez de ensinar o novo item do Manual para ela.

Espero que tenha gostado! Escrever esse conto foi muito importante pra mim, e, de certa forma, muito curativo também. Meus personagens sempre são inspirados em partes de pessoas, mas nunca um personagem foi TÃO inspirado quanto a Cinzenta. Ela foi (na verdade, ela é) a representação de uma gatinha de rua que vivia aqui no bairro, a quem eu tinha um carinho gigantesco e gostaria de ter adotado. Esse foi meu jeito de dar a ela um final feliz junto da Luar (cof cof, Luna, cof cof), como deveria ter sido…

Um dia eu volto para contar outra história. Quem sabe, o começo de algo novo…

Que ventos tranquilos conduzam sua passagem até nos econtrarmos novamente, Viajante!